A Zona Leste como universo próprio
A Zona Leste de São Paulo é um espaço que exala vida e vibrante diversidade. Neste território, suas ruas estão repletas de histórias que frequentemente ficam fora dos holofotes das narrativas oficiais da cidade. Ao explorar essa região, é possível descobrir lugares que refletem suas identidades culturais, experiências de vida e a rica cena cervejeira que caracteriza a área.
Esta coluna se propõe a compartilhar algumas dessas descobertas, que vão desde a espiritualidade e cultura até a apreciação de cervejas artesanais, fazendo uma jornada emocional e sensorial pela Zona Leste.
Memória, negritude e pertencimento
O amor que sinto por São Paulo é profundo e multifacetado. Muitas vezes, me vejo passeando pelo centro histórico, onde busco reviver e entender as narrativas de figuras históricas como Luiz Gama e os Rebouças, pessoas negras fundamentais na construção desta grande metrópole. Os relatos que permeiam a história da cidade são intensos e precisam ser amplamente divulgados.

Um local que me impactou muito foi a casa onde Luiz Gama viveu, situada na Rua 25 de Março, número 595. Este espaço não é apenas um ponto turístico, mas um símbolo vivo das lutas e conquistas que moldaram a cidade e o Brasil.
A cidade que também se vive pela arquitetura e pela arte
Desde a minha adolescência, sinto uma forte conexão com o icônico edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer. Sua forma ondulada e envolvente continua a me fascinar. Muitas vezes, já pensei em residir ali, tamanha é minha apreciação por sua estrutura. Além dos edifícios, os museus e centros culturais têm um lugar especial no meu coração, como o Museu Afro Brasil, onde as exposições temporárias sempre oferecem um refresco cultural que me inspira.
Zona Leste: afeto, história e cotidiano
Alguns bairros da Zona Leste são especialmente significativos para mim. Lugares como Ermelino Matarazzo e Penha têm o seu ritmo e carisma únicos, que me fazem desejar passar o dia apenas observando a vida local e suas peculiaridades.
Recentemente, tive a oportunidade de visitar o CEU Padre Ticão, um espaço que não apenas é um centro educacional, mas também um pilar da cultura local, desenvolvido sob a liderança de um importante nome da região. O trabalho dele foi fundamental para que bairros como a USP Leste se tornassem possíveis, e escutar suas histórias naquele espaço foi de uma riqueza inigualável.
Natureza e desaceleração no Parque Ecológico do Tietê
Entre as opções de lazer, o Parque Ecológico do Tietê é um verdadeiro oásis no meio da cidade, proporcionando um respiro à correria urbana. Com sua variedade de fauna e flora, trilhas para caminhadas, lagos para a contemplação do pôr do sol e um ambiente que acolhe tanto crianças quanto adultos, o parque é ideal para momentos de reflexão e descontração.
Além disso, o espaço abriga um museu que relata a história do Rio Tietê e do desenvolvimento da cidade, tornando-se um lugar educativo e encantador, onde se pode aprender e desfrutar ao mesmo tempo.
A primeira igreja de São Paulo está na Zona Leste
Outro ponto que deve ser destacado é a Capela de São Miguel Arcanjo, localizada em São Miguel Paulista. Essa é a primeira igreja erguida em São Paulo, datada de 1560, construída em colaboração dos indígenas Guaianases sob a orientação dos jesuítas. Além de seu valor histórico, a capela é um testemunho vivo das complexidades das relações que existiram durante o período colonial.
O seu tombamento em 1938 foi uma conquista importante, discutida amplamente por Mário de Andrade, e marcou um avanço significativo na preservação do patrimônio histórico da capital.
Arte contemporânea e ancestralidade
No SESC Belenzinho, tive uma experiência marcante com a arte contemporânea. A exposição “Ònà Irin — Caminho de Ferro”, da artista baiana Nádia Taquary, é um surpreendente diálogo com a ancestralidade e a memória. A curadoria de Amanda Bonan oferece um espaço de reflexão sobre a força da mulher negra, ampliando as discussões sobre identidade e pertencimento.
A mostra estará disponível até 22 de fevereiro de 2026, e sua profundidade estética e emocional certamente deixará uma marca na vivência de cada visitante.
Café Quintal: casa de vó na Zona Leste
Em meio a tantas experiências, existe um local que se tornou um ícone de acolhimento: o Café Quintal. Esse lugar é como uma viagem nostálgica à infância, onde cada canto remete a memórias afetivas. O cardápio repleto de delícias caseiras, como bolos e doces artesanais, torna a experiência ainda mais especial.
Mais do que oferecer apenas comida, o café proporciona um sentido de comunidade e pertencimento, onde as pessoas se sentem em casa.
Cervejaria 77: encerrando com chave de ouro
Para finalizar minha missa pela Zona Leste, uma visita à Cervejaria 77 é quase que obrigatória. Com mais de uma década de história, esse espaço tem se destacado por seus aromas e sabores, graças ao trabalho artesanal de Aline Motta e Markus Honório.
O ambiente é acolhedor, com uma atmosfera inclusiva, perfeita para um encontro entre amigos e familiares. Muito além de uma simples cervejaria, é um espaço que combate a discriminação em suas diversas formas.
Escolhi experimentar a “Durango 95”, uma Dark Mild Ale que traz uma combinação única de sabores. Apesar de seu teor alcoólico relativamente baixo, a cerveja surpreendeu com suas notas de toffee, chocolate e nozes. Uma experiência refrescante e saborosa para brindar à vida.
Celebrações e tradições na Zona Leste
Celebrar a diversidade cultural da Zona Leste vai além de experiências gastronômicas e artísticas. Trata-se de reconhecer a história e as tradições que fazem a região vibrante. Com festivais, festas juninas e outras celebrações, os moradores mostram seu amor pela cultura e a força de suas origens.
É um lembrete do quanto a resistência e a união das comunidades contribuem para a construção de uma cidade mais inclusiva e respeitosa para todos. Como uma colcha de retalhos, a Zona Leste é um espaço que pulsa, brota vida e ensina a todos nós sobre a riqueza das diversidades.
Ao refletir sobre essa jornada, é evidente que a Zona Leste, com suas contradições e belezas, permanece como um lugar que deve ser celebrado e apreciado. A cada esquina, há uma nova história, um novo aprendizado e uma nova conexão a ser feita. É um convite aberto a todos que desejam descobrir, sentir e vivenciar.